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Inovação tecnológica e segurança cibernética – desafio dos líderes

*Por Álvaro Luiz Massad Martins

A velocidade de inovação tecnológica é cada dia maior, seja quando pensamos em hardware, software, ou até mesmo em novos modelos de negócios, como a computação em nuvem; o que inclusive leva a competição entre as empresas a níveis também mais elevados, nesse contexto é importante pensar em qual estratégia a empresa deve adotar para continuar competitiva, porém sem descuidar das questões relativas à segurança digital.

Como temos visto, ao longo do tempo as empresas passaram a gastar grandes somas de dinheiro em tecnologia da informação não mais buscando produtividade somente, mas, sobretudo buscando melhorar sua competitividade; e agora já chegou o momento de ao mesmo tempo ficarem atentas aos aspectos relativos a cibersegurança

Para a empresa continuar competitiva e ao mesmo tempo mais segura qual deveria ser a melhor postura? Sair na frente dos concorrentes, tendo uma postura pioneira; ou acompanhá-los bem de perto, vendo quais os melhores caminhos e evitando os piores; ou ainda ficar mais para traz, deixando as outras empresas sempre à frente para aprender com seus erros?

Na verdade, para a empresa tomar boas decisões a respeito precisa ainda analisar alguns outros aspectos, como por exemplo, qual a estratégia de negócio da empresa, qual o mercado que ela está inserida, qual a quantidade de dinheiro que a empresa tem para gastar com inovação, e até mesmo qual a quantidade de dinheiro que a empresa tem para perder com este assunto!

Para podermos entender melhor o tema vamos analisar um modelo que propõe quatro possíveis posturas relativas perante inovação: líder, seguidor rápido, seguidor lento e não seguidor, conforme figura abaixo.

Mas antes de podermos analisar cada uma das posturas e os riscos a elas associados precisamos fazer algumas considerações, a primeira delas é deixar claro que o parâmetro utilizado para definir a postura é o gasto total em TI, representado pelo indicador G, que significa o gasto total da empresa com TI dividido pela sua receita, sendo que o líder é aquele que mais gasta e o não seguidor o que menos gasta.

Uma segunda consideração importante antes de aprofundarmos no entendimento do modelo é que liderança tecnológica é um conceito relativo, e só podemos comparar empresas de um mesmo setor e mesmo âmbito de atuação, comparar empresas de setores diferentes seria um grande equívoco, pois toda comparação é realizada para se chegar a algum diagnóstico e consequente tomada de decisões, e se for feita uma comparação equivocada, obviamente o diagnóstico e a decisão também serão equivocados.

E uma última consideração ainda é também deixar claro que o mais importante não é exatamente qual a postura adotada pela empresa, mas sim quais os riscos associados a cada postura, por isso a nossa análise do modelo a seguir deve ser focada nos riscos, e quais decisões a empresa deveria tomar a partir desse entendimento, ou ainda, como mitigar riscos de decisões que a empresa tenha que tomar.

Neste artigo vamos analisar as posturas mais protagonistas, do líder em inovação, e do seguidor rápido.

Líder em inovação

A primeira das posturas é a do líder em inovação, cujo proposta é desbravar caminhos, sair na frente, não importando se com tecnologia própria ou de terceiros. O líder quer sempre estar na frente, então ele está muito preocupado, gastando bastante dinheiro com pesquisa e desenvolvimento, porque ele quer sair na frente, como já mencionado, não importa se ele mesmo está bancando, patrocinando a pesquisa ou se outra empresa. Um exemplo muito recorrente são as startups, como em Israel, que é um país onde muitas startups nascem e proliferam, e uma empresa que tem uma postura de líder muito acentuada, como o Google por exemplo, que está sempre atento a essas startups com tecnologias muito inovadoras, e com modelos de negócios que façam sentido para a empresa, para que sejam adquiridas e integradas ao Google.

A postura de líder em inovação é a que apresenta o risco mais elevado, tanto risco positivo como risco negativo, ou seja, risco de dar certo e risco de dar errado.

O risco negativo desta postura é representado pelo fato de que muito do dinheiro investido em pesquisa e desenvolvimento pode não resultar em inovações para o negócio, exemplos não faltam de empresas que investem bastante dinheiro em inovação e não conseguem chegar a nenhum resultado positivo, especialistas no assunto mostram que apenas 10% a 20% dos projetos são implementados com sucesso. Então o risco é de se perder muito dinheiro quando se está investindo em algo muito novo, e se perder tempo caminhando em uma direção que não levará a lugar algum.

Já o risco positivo da postura de líder em inovação é exatamente a situação oposta, se a inovação der certo a empresa pode promover o que se costumou chamar de “inovação disruptiva”, que nada mais é do que uma inovação que rompe com os padrões anteriores, e na hora que o líder rompe um padrão, ele cria uma vantagem competitiva e dificilmente quem está vindo atrás o alcança.

Olhando especificamente para as questões de cibersegurança, esta postura corre um risco negativo relevante pois, quando a empresa está focada em sair na frente do ponto de vista tecnológico, muitas vezes poderá adotar tecnologias que ainda não estarão completamente maduras, e justamente por isso podem apresentar muitas vulnerabilidades a questões de segurança.

Como um bom exemplo podemos citar a atual “febre” pelo uso de ferramentas de inteligência artificial generativa, como o ChatGPT da Open AI e outras aplicações derivadas dele, enquanto assistimos a um crescente volume de adoção dessas ferramentas, começamos também a ter notícia de alguns incidentes cibernéticos advindos de falhas e/ou utilizações inadequadas, como quando alguns alimentam a ferramenta com informações corporativas confidenciais, e essas informações acabam vazando!

Seguidor Rápido

A segunda postura é a do seguidor rápido, cuja proposta é estar muito próximo do líder, até mesmo ajudando a definir o ritmo de inovações em seu setor de atuação, mas deixar o líder na frente. A intenção do seguidor rápido é aprender com os erros do líder, não raro ele escolhe um caminho diferente daquele escolhido pelo líder.

O risco do seguidor rápido é moderado em relação ao risco do líder, o risco negativo mais importante é que muitas vezes, quando o líder consegue promover a ruptura, o seguidor rápido fica tão para trás que não consegue alcançar mais o líder, ficando assim menos competitivo, e, em casos de rupturas muito acentuadas ele pode ficar até fora do mercado.  

O risco positivo é que ao não cometer os mesmos erros do líder, o seguidor rápido deixa de perder o tanto de dinheiro que o líder irá perder quando errar, e, além disso pode ganhar muito em eficiência, ao evitar soluções inviáveis. 

Vale ressaltar que nem sempre é fácil saber exatamente em que posição a empresa está, pois como já mencionamos o parâmetro que define este modelo é o G (gasto total em TI dividido pela receita), e no mundo real dificilmente saberemos com precisão o que nossos concorrentes estão fazendo com respeito a inovação, e menos ainda quanto estão de fato gastando no assunto. Então ao assumir uma postura de seguidor rápido eu posso imaginar que o líder está a uma distância próxima de mim no assunto, mas posso estar equivocado e ele estar muito à frente!

No que diz respeito aos riscos de cibersegurança, o risco do seguidor rápido é moderado em relação ao risco do líder, pois à medida que os erros do líder passam a ser conhecidos, o seguidor rápido os evita.

No exemplo dado acima, do uso de ferramentas de inteligência artificial generativa, como o ChatGPT da Open AI, conforme vão se tornando públicas as situações de incidentes cibernéticos derivados do uso desse tipo de tecnologia, tanto as vulnerabilidades vão sendo corrigidas, como as empresas/pessoas passam a adotar processos mais seguros no uso dessa tecnologia.

Em nosso próximo artigo analisaremos as posturas menos protagonistas, do seguidor lento e do não seguidor.

*Álvaro Luiz Massad Martins é professor nos cursos de MBA e Pós-MBA da FGV, e coordenador acadêmico da Formação Executiva em Cibersegurança. Martins é doutor e mestre em Administração de Empresas pela EAESP – Fundação Getulio Vargas- SP, onde também se graduou em Administração de Empresas. Tem mais de 30 anos de experiência no segmento de Tecnologia da Informação, tendo atuado em posições de direção em empresas como: American Express, Xerox do Brasil, Embratel, Diveo, Intelbras, Mandriva e Alcatel-Lucent. Atualmente, é Diretor Executivo da IT by Insight, empresa de consultoria na área de TI, que tem por missão ajudar as empresas na jornada em busca da Aceleração Digital, com especial foco em questões ligadas à cibersegurança; além de atuar como professor nos cursos de MBA e Pós-MBA da FGV, e coordenador acadêmico da Formação Executiva em Cibersegurança.

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